Cartão de crédito - amigo ou inimigo?

Publicado em 15/04/2020 - autor: Carlos Alberto Debastiani

A criação do cartão de crédito acentuou ainda mais a virtualização do dinheiro (assunto que já abordei no artigo Armadilhas financeiras). Também acentuou a sensação de poder do consumidor ao retirar dele a obrigação de pagar a dívida assumida na data inicialmente prevista. Sim, comprar com cartão de crédito pode dar a sensação de que não é necessário pagar (ou que pagar é muito fácil), já que a dívida pode ser eternamente “rolada” por meio do uso do crédito rotativo, pagando-se apenas o valor mínimo da fatura.

É obvio que o portador assume um custo imenso por conta dos juros cobrados ao utilizar esse recurso, mas a maioria das pessoas não consegue enxergar isso, tendo sua visão e sua inteligência totalmente obscurecidas com a possibilidade ilimitada de comprar, comprar e comprar.

Diferentemente do talão de cheques, que tem apenas vinte folhas e, portanto, permite apenas vinte compras, o cartão de crédito torna a quantidade de compras ilimitada, pois pode-se usá-lo quantas vezes desejar. Mesmo existindo um limite de crédito que coloca freios no instinto consumidor, este costuma ser bem superior à capacidade de pagamento do portador. E isso é um dos fatores mais frequentemente associados ao endividamento causado pelo uso descontrolado do cartão de crédito.

Mas o consumidor compulsivo encontrou logo uma saída para driblar a questão do limite de crédito: passou a adquirir muitos cartões de crédito, cada um com seu limite independente. Quando acaba o limite de um, passa a utilizar o outro. A operadora normalmente não leva em consideração os limites de crédito dos demais cartões que o cliente já possui (principalmente se forem de bandeiras diferentes) quando lhe concede um novo cartão. Com isso, o montante de crédito disponível (soma dos limites de todos os cartões) vai superar em muito o valor de seu salário e, por consequência, a sua capacidade de saudar as dívidas assumidas com eles.

Essa concessão exagerada de crédito tem cunho estratégico para os negócios das operadoras, na medida em que estimula gastos excessivos e força os consumidores a “rolar” a dívida para o mês seguinte, pagando altos juros por essa possibilidade (que eles consideram um benefício!). Esse pagamento de juros pelo uso do crédito rotativo é uma fonte de lucro para as operadoras de cartão de crédito.

Isso significa que, ao pagar apenas o valor mínimo da fatura, será acrescentado (sob a forma de juros) um valor expressivo ao saldo devedor. Continuando a pagar o valor mínimo todo mês, e adicionando novas compras, a dívida só aumentará e o portador se tornará um eterno devedor.

O cartão de crédito figura, de longe, como o principal vilão nas estatísticas de dívidas inadimplentes do varejo, principalmente na categoria dos gastos pessoais. Essa realidade vem provar que, nas compras com cartão de crédito, a emoção fala muito mais alto que a razão ou a necessidade.

Para reduzir o efeito danoso da influência dessas emoções no ato de comprar utilizando o cartão de crédito, é necessário adquirir o hábito saudável de planejar. É preciso anotar e controlar as compras realizadas com cartão de crédito (seja numa planilha eletrônica ou num caderno de papel) como se fosse um controle de fluxo de caixa. Essa medida é de vital importância para que se tenha a perfeita visibilidade sobre até onde os gastos podem ir.

Merecem atenção, também, os parcelamentos da compra pelo lojista. Essa opção de pagamento – muito interessante, do ponto de vista financeiro – deveria representar uma vantagem imensa para o consumidor, mas torna-se a principal vilã na vida financeira da maioria das pessoas, na medida em que é utilizada sob total ausência de planejamento.

O impacto de um parcelamento só será mínimo se o consumidor não efetuar uma quantidade excessiva de compras parceladas, de forma que essas parcelas venham a se acumular nos meses seguintes, gerando grandes montantes de dívidas a pagar. Esse problema surge porque a pessoa se lança às compras parceladas enxergado somente o valor individual das parcelas em relação ao seu salário. Ao realizar outra compra parcelada não se lembra do parcelamento anterior e vai acumulando cada nova parcela com as dívidas já contraídas. O acúmulo das parcelas vai criando uma dívida crescente (como uma bola de neve rolando montanha abaixo) que só é percebida pelo consumidor no momento de pagar a fatura, quando já é tarde demais para tomar qualquer atitude corretiva.

Por isso é importante usar a planilha, onde se deve lançar inclusive as parcelas com data futura, para poder visualizar quanto dos recursos futuros já está comprometido com esses parcelamentos. Isso vai demonstrar quanto ainda está disponível para novas compras parceladas, de modo que o acúmulo de parcelas não sobrecarregue a capacidade de pagamento, no futuro.

O cartão de crédito pode se tornar uma ferramenta de grande valia para sua vida financeira, se você souber usá-lo adequadamente. Por isso, antes de “sacar” seu cartão de crédito da carteira para efetuar uma compra, pense na forma como ele está participando de sua vida financeira: como seu amigo ou como seu inimigo?



Esse tema, e muitos outros, são abordados no livro "Pare de Viver na Corda Bamba"







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